quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Inevitável da vida
O instante
Da novidade ingênua;
Do eterno acontecer.

Como aquela velha história,
Que em cada recontar
Não lhe parece tão igual...

Recomeça e sempre finda...
E me aparece e some,
Nunca fica.

Mesmo eu,
Pareço, então, fugir daqui de dentro de mim;
Quando volto sei que não mais sou o mesmo.

Mas impossível não entristecer
Quando diz que vai embora
Deixando sua imagem
apagando com o tempo...

Quem por fim não se incomoda?
Não se perturba e se angustia do porvir?
E esse medo
Do inevitável da vida?
Viver!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

CQC: um programa de humor e sua íntima relação com o senso comum.


Refletindo sobre o programa humorístico CQC, transmitido às segundas feiras pela BAND, fiquei intrigado e um tanto preocupado com uma certa maneira de utilizar os fatos da política e da sociedade com a finalidade de produzir humor, a caricatura. Que por um lado é muito interessante, pois nos leva a algum tipo de reflexão por meio de uma provocação engraçada, divertida; contudo, dessa mesma provocação divertida acerca de um fato, situação ou indivíduo produz-se também perversidades, porque essa maneira de se valer de tais elementos fomenta interpretações que reproduzem uma característica bem conhecida da mentalidade popular: o senso comum.

O referido programa satiriza a estrutura dos telejornais, de modo que seu conteúdo está diretamente ligado ao objeto de cuja referência se constrói uma caricatura com o objetivo de causar o riso; portanto, vale-se de temas como a política, economia, problemas sociais e o cotidiano - talvez por isso o “humor” de Tas e companhia tenha ganhado o adjetivo de “inteligente” e, de certa forma, responsabilidade no trato da política, sociedade etc.

Contudo, mesmo que a finalidade primeira do programa seja fazer humor e pelo fato mesmo de fazer humor, ao abordar assuntos controversos e polêmicos, engendram-se determinadas interpretações acerca destes – os quais servem de mote para as piadas veiculadas pelo programa – que são perigosas, pois reduzem e simplificam a realidade; e se assimiladas pelas pessoas fomentam o senso comum.

O problema desta interessante manifestação da mentalidade popular enquanto estrutura de pensamento para se concluir alguma coisa de algo é a minimização das determinações da vida real à rusticidade de causas e conseqüências pouco esclarecedoras, estereótipos e chavões, que, no limite, conserva velhos preconceitos nos diferentes âmbitos da sociedade.

Tal distorção se faz presente pela maneira como se “fabrica” este tipo de humor – da sátira política e social, tão amigo das generalizações , superficialidades e dos referidos estereótipos; e que perde todo sentido no plano do relativismo. De modo que, essa forma de produzir um discurso sobre a realidade, se não deriva, encaixa-se perfeitamente aos lugares comuns.

Tomo aqui o programa CQC, pois ao incorporar uma estrutura jornalística à construção de seu humor, chega-se, em alguns momentos, à aparência de jornalismo bem humorado, contudo não o é; mas é sim humor fantasiado de jornalismo, pois não informa, faz piada e apenas isso, a diferença é que seus temas são a política, o cotidiano etc. E esse “erro interpretativo” no assistir o programa, se cometido, é gravemente “distorcivo” ao se assimilar assuntos de grande importância e complexidade como a corrupção política, fazendo com que se entenda tal fato, que aqui está como exemplo, no citado plano das generalizações estereotipadas, engendrando opiniões que são cartas marcadas, formadoras do desinteresse e pouco esforço na compreensão desse tipo de assunto, fazendo parecer que tal situação só tem sentido na piada, “pois o país não tem jeito mesmo”.

Portanto, é necessário criticar todos os tipos e modos de dizer, para não nos deixarmos levar pelo cômodo senso comum, que nos persegue de todos os lados e se esconde no que aparentemente é inteligente e engraçado .

domingo, 25 de outubro de 2009

Vazio de ser e Cheio de vida

Uma fuga simples
O livro me dá.
Pois me escapa a força da ação
Daquela personagem cuja vida não cabe...
Escapa à ordem...

Num modo de ser ávido de existência,
Que o tempo come;
Que não dá tempo;
Que nada falta
E tudo transborda
De vida inteira...
Completa...
Num pequeno frasco cheio de ser

Mas me esvazio da força da corrente
Que destrói a borda do rio;
Que passa com fúria
E não pode consigo em seu leito.

sábado, 24 de outubro de 2009


Todos os escolásticos concordam em que as crianças ignoram os motivos que excitam a sua vontade; porém que os adultos se arrastam sobre este globo sempre vacilando como as crianças; que, como elas, não sabem donde procedem; que não tem mais unidade em suas ações; e que são governados da mesma sorte com biscoitos, bolinhos e disciplinas; é o que ninguém há de acreditar de boa vontade, e contudo o argumento me parece palpável. Confesso-te sem custo, porque sei qual seria a tua objeção, a este respeito, que estes são os mais ditosos; pois que, à maneira de crianças, não vivem senão para o presente, passeiam, despem e vestem as suas bonecas, rodeiam com o maior respeito à gaveta em que a mãezinha tem os bolinhos, e apenas conseguem o que desejam logo o devoram ansiosamente e gritam: quero mais! Estas criaturas assim são indubitavelmente venturosas! Felicidade ainda para aqueles que, dando uma decoração pomposa às suas ocupações fúteis e títulos aparatosos às suas paixões; representam-nas ao gênero humano com o aspecto de operações gigantescas, praticamente para a sua prosperidade e gloria! Ditosos os que podem pensar assim! Porém aquele que modesto no seu coração conhece a vaidade de todas estas coisas; que observa o prazer com que o aldeão feliz transforma o seu pequeno jardim em um paraíso; e com que diligência o desgraçado, curvado com o peso da sua miséria, segue o seu caminho quase faltando-lhe o alento; que vê, eu o repito, que todos são igualmente interessados a contemplar, mesmo um só minuto mais, a luz do grande astro: este sim pode gozar tranqüilidade; cria um mundo por si mesmo e também é feliz porque é homem. Ainda que seja de muito limitados talentos, sempre nutre no coração o doce sentimento da liberdade, porque poderá deixar este caos quando quiser.

(Trecho da Carta 7, 22 de maio. Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe.)


domingo, 18 de outubro de 2009

Uma nova igualdade depois da crise

O objetivo de uma economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população. O crescimento econômico não é um fim, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas. Não importa como chamamos os regimes que buscam essa finalidade. Importa unicamente como e com quais prioridades saberemos combinar as potencialidades do setor público e do setor privado nas nossas economias mistas. Essa é a prioridade política mais importante do século XXI. A análise é de Eric Hobsbawm. Clique aqui e veja o artigo completo

sábado, 15 de agosto de 2009

Depois do primeiro olhar...

Há um entusiasmo eufórico em conhecer;
Se mostrar, com medo de mostrar-se mal.
À primeira vista...
Pelo canto das pálpebras
Nos olhamos, num misto de vergonha e desejo
De ir depressa satisfazer o que é inerente a todos:
Em ligarmo-nos uns aos outros, num inevitável jogo interpessoal que dá prazer.
A vontade sólida e permanente que existe no medo da solidão,
E nos faz voar aos braços de muitos, com os quais brigamos e amamos
E inevitavelmente nunca nos separamos.
Pode-se deixar de falar, de ouvir...

Assim figura-se o encontro
A separação nunca é plena,
Mas nem por isso é menos dolorosa,
Pois o ato do riso inexiste,
Perde-se o prazer da convivência
E fica apenas o medo de estar só.
Num pesado modo de manter-se vivo.

O CONTRATO SOCIAL


quinta-feira, 13 de agosto de 2009



Até agora, os homens formaram sempre idéias falsas sobre si
mesmos, sobre aquilo que são ou deveriam ser. Organizaram as suas
relações mútuas em função das representações de Deus, do homem
normal, etc., que aceitavam. Estes produtos do seu cérebro acabaram
por os dominar; apesar de criadores, inclinaram-se perante as suas
próprias criações. Libertemo-los portanto das quimeras, das idéias,
dos dogmas, dos seres imaginários cujo jugo os faz degenerar.
Revoltemo-nos contra o império dessas idéias. Ensinamos os homens
a substituir essas ilusões por pensamentos que correspondam à
essência do homem, afirma um; a ter perante elas uma atitude crítica,
afirma outro; a tirá-las da cabeça, diz um terceiro e a realidade
existente desaparecerá. (A Ideologia Alemã - Karl Marx Friedrich Engels)

(...) Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência da luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava
a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu
véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa
brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as
cores, mas as próprias coisas e seres, tornando-os, por essa maneira,
duplamente invisíveis. (José Saramago, Ensaio sobre a cegueira)

SÓCRATES – Figura- te agora o estado da natureza humana, em
relação à ciência e à ignorância, sob a forma alegórica que
passo a fazer . Imagina os homens encerrados em morada
subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda
extensão. Aí , desde a infância, têm os homens o pescoço e as
pernas presos de modo que permanecem imóveis e só vêem os
objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem
voltar o rosto. Atrás deles , a certa distância e altura, um fogo
cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos imagina um
caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido
com os tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os
espectadores para ocultar - lhes as molas dos bonecos
maravilhosos que lhes exibem.

GLAUCO - Imagino tudo isso.

SÓCRATES - Supõe ainda homens que passam ao longo deste
muro, com figuras e objetos que se
elevam acima dele, figuras de homens e animai s de toda a
espécie, talhados em pedra ou madeira. Entre os que carregam
tai s objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam em
silêncio.

GLAUCO - Similar quadro e não menos singulares cativos!

SÓCRATES - Pois são nossa imagem perfeita. Mas, dize-me:
assim colocados, poderão ver de s i mesmos e de seus
companheiros algo mai s que as sombras projetadas, à claridade
do fogo, na parede que lhes fica fronteira? ( Platão )

Falsificam-se os eventos, já que não é propriamente o fato o que a mídia nos dá, mas uma interpretação, isto é, a noticia. ( Milton Santos – Por uma Outra Globalização)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Sentido







É Profundo...
Aquilo que ouço e reparo atento.

Ouço o grito do mundo.
Junto dele tem o meu?
Vejo tudo que se desenha.
Em algum quadro eu estou?
Mas não é simples entender.

Sente?..
junto daquilo na sua frente, a moldura
Que delimita um espaço.
Em tudo existe uma.
Em tudo um limite de sentido, se reparar,
Podes ver, pois assim inventaram.

Mas a sensação lhe dá apenas traço opaco
De um som, palavra ou cor.
Quem me leva daqui?
A seta, ou meu coração?


sexta-feira, 12 de junho de 2009

O relato do Prof. Dr. Pablo Ortellado, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, da Universidade de São Paulo, sobre os acontecimentos de 09/06

Prezados colegas,

Eu nunca utilizei essa lista para outro propósito que não informes sobre o que acontece no CO (transmitindo as pautas antes da reunião e depois enviando relatos). Essa lista esteve desativada desde a última reunião do CO porque o servidor na qual ela estava instalada teve problemas e, com a greve, não podia ser reparado. Dada a urgência dos atuais acontecimentos, consegui resgatar os emails e criar uma lista emergencial em outro servidor. O que os senhores lerão abaixo é um relato em primeira pessoa de um docente que vivenciou os atos de violência que aconteram poucas horas atrás na cidade universitária (e que seguem, no momento em que lhes escrevo – acabo de escutar a explosão de uma bomba). Peço perdão pelo uso desta lista para esse propósito, mas tenho certeza que os senhores perceberão a gravidade do caso.

Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores tinham deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.

Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão (falsamente chamadas de “efeito moral” porque soltam estilhaços e machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu
correndo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléia havia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas).

Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Adusp se recuperando.

Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes que tinham sido espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor Jorge Machado).

Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois
estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a entrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar qualquer informação. Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos.

A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira), autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário.

Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais. Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem que é conveniente.

Cordialmente,

Prof. Dr. Pablo Ortellado

Escola de Artes, Ciências e Humanidades

Universidade de São Paulo

terça-feira, 9 de junho de 2009

Livre


Livre.

Quando disse que veio a tal liberdade,
Que aconteceu com quem tinha ela na mão?

Bom...
Só sei que ela está aqui, na mão.
E o povo se entende com ela como acha que deve
Sei também que não pode mais soltar
Uma hora a gente aprende a usar.
Se é que tem que aprender
Porque, se tivesse jeito certo
Talvez menos livre seria o que em suas letras se decifra.

Então escolhe o batuque que gosta
E deixa os outros com os seus


Mas as vezes parece que a memória morreu.
Parece que foi em vão me deixar prender.
Num esforço tanto...
Pra te ver pular assim sem saber pra que!
Uns tantos juntos
ou cada um sozinho

Mas...
É assim que é
Pior seria não poder pular
Se ta errado, me convença parar
E se não sabe por que pulo,
Te digo que faço pra lembrar
Que um dia assim não podia comemorar.

Não reclama e dança comigo
Todos juntos, quase um caos
Somos todos e falamos, e podemos.
E no tirar as diferenças
Sobra o que a todos nos agrada
E pra isso me Liberta
Liberdade.

sábado, 2 de maio de 2009

Eric Hobsbawm - The Guardian


Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, o deslocamento do mercado livre para a ação pública deve ser maior do que os políticos imaginam. O século XX já ficou para trás, mas ainda não aprendemos a viver no século XXI, ou ao menos pensá-lo de um modo apropriado. Não deveria ser tão difícil como parece, dado que a idéia básica que dominou a economia e a política no século passado desapareceu, claramente, pelo sumidouro da história. O que tínhamos era um modo de pensar as modernas economias industriais – em realidade todas as economias -, em termos de dois opostos mutuamente excludentes: capitalismo ou socialismo.



Conhecemos duas tentativas práticas de realizar ambos sistemas em sua forma pura: por um lado, as economias de planificação estatal, centralizadas, de tipo soviético; por outro, a economia capitalista de livre mercado isenta de qualquer restrição e controle. As primeiras vieram abaixo na década de 1980, e com elas os sistemas políticos comunistas europeus; a segunda está se decompondo diante de nossos olhos na maior crise do capitalismo global desde a década de 1930. Em alguns aspectos, é uma crise de maior envergadura do que aquela, na medida em que a globalização da economia não estava então tão desenvolvida como hoje e a economia planificada da União Soviética não foi afetada. Não conhecemos a gravidade e a duração da atual crise, mas sem dúvida ela vai marcar o final do tipo de capitalismo de livre mercado iniciado com Margareth Thatcher e Ronald Reagan.



A impotência, por conseguinte, ameaça tanto os que acreditam em um capitalismo de mercado, puro e desestatizado, uma espécie de anarquismo burguês, quanto os que crêem em um socialismo planificado e descontaminado da busca por lucros. Ambos estão quebrados. O futuro, como o presente e o passado, pertence às economias mistas nas quais o público e o privado estejam mutuamente vinculados de uma ou outra maneira. Mas como? Este é o problema que está colocado diante de nós hoje, em particular para a gente de esquerda.



Ninguém pensa seriamente em regressar aos sistemas socialistas de tipo soviético, não só por suas deficiências políticas, mas também pela crescente indolência e ineficiência de suas economias, ainda que isso não deva nos levar a subestimar seus impressionantes êxitos sociais e educacionais. Por outro lado, até a implosão do mercado livre global no ano passado, inclusive os partidos social-democratas e moderados de esquerda dos países do capitalismo do Norte e da Australásia estavam comprometidos mais e mais com o êxito do capitalismo de livre mercado.



Efetivamente, desde o momento da queda da URSS até hoje não recordo nenhum partido ou líder que denunciasse o capitalismo como algo inaceitável. E nenhum esteve tão ligado a sua sorte como o New Labour, o novo trabalhismo britânico. Em suas políticas econômicas, tanto Tony Blair como Gordon Brown (este até outubro de 2008) podiam ser qualificados sem nenhum exagero como Thatchers com calças. O mesmo se aplica ao Partido Democrata, nos Estados Unidos.



A idéia básica do novo trabalhismo, desde 1950, era que o socialismo era desnecessário e que se podia confiar no sistema capitalista para fazer florescer e gerar mais riqueza do que em qualquer outro sistema. Tudo o que os socialistas tinham que fazer era garantir uma distribuição eqüitativa. Mas, desde 1970, o acelerado crescimento da globalização dificultou e atingiu fatalmente a base tradicional do Partido Trabalhista britânico e, em realidade, as políticas de ajudas e apoios de qualquer partido social democrata. Muitas pessoas, na década de 1980, consideraram que se o barco do trabalhismo não queria ir a pique, o que era uma possibilidade real, tinha que ser objeto de uma atualização.



Mas não foi. Sob o impacto do que considerou a revitalização econômica thatcherista, o New Labour, a partir de 1997, engoliu inteira a ideologia, ou melhor, a teologia, do fundamentalismo do mercado livre global. O Reino Unido desregulamentou seus mercados, vendeu suas indústrias a quem pagou mais, deixou de fabricar produtos para a exportação (ao contrário do que fizeram Alemanha, França e Suíça) e apostou todo seu dinheiro em sua conversão a centro mundial dos serviços financeiros, tornando-se também um paraíso de bilionários lavadores de dinheiro. Assim, o impacto atual da crise mundial sobre a libra e a economia britânica será provavelmente o mais catastrófico de todas as economias ocidentais e o com a recuperação mais difícil também.



É possível afirmar que tudo isso já são águas passadas. Que somos livres para regressar à economia mista e que a velha caixa de ferramentas trabalhista está aí a nossa disposição – inclusive a nacionalização -, de modo que tudo o que precisamos fazer é utilizar de novo essas ferramentas que o New Labour nunca deixou de usar. No entanto, essa idéia sugere que sabemos o que fazer com as ferramentas. Mas não é assim.



Por um lado, não sabemos como superar a crise atual. Não há ninguém, nem os governos, nem os bancos centrais, nem as instituições financeiras mundiais que saiba o que fazer: todos estão como um cego que tenta sair do labirinto tateando as paredes com todo tipo de bastões na esperança de encontrar o caminho da saída.



Por outro lado, subestimamos o persistente grau de dependência dos governos e dos responsáveis pelas políticas às receitas do livre mercado, que tanto prazer lhes proporcionaram durante décadas. Por acaso se livraram do pressuposto básico de que a empresa privada voltada ao lucro é sempre o melhor e mais eficaz meio de fazer as coisas? Ou de que a organização e a contabilidade empresariais deveriam ser os modelos inclusive da função pública, da educação e da pesquisa? Ou de que o crescente abismo entre os bilionários e o resto da população não é tão importante, uma vez que todos os demais – exceto uma minoria de pobres – estejam um pouquinho melhor? Ou de que o que um país necessita, em qualquer caso, é um máximo de crescimento econômico e de competitividade comercial? Não creio que tenham superado tudo isso.



No entanto, uma política progressista requer algo mais que uma ruptura um pouco maior com os pressupostos econômicos e morais dos últimos 30 anos. Requer um regresso à convicção de que o crescimento econômico e a abundância que comporta são um meio, não um fim. Os fins são os efeitos que têm sobre as vidas, as possibilidades vitais e as expectativas das pessoas.



Tomemos o caso de Londres. É evidente que importa a todos nós que a economia de Londres floresça. Mas a prova de fogo da enorme riqueza gerada em algumas partes da capital não é que tenha contribuído com 20 ou 30% do PIB britânico, mas sim como afetou a vida de milhões de pessoas que ali vivem e trabalham. A que tipo de vida têm direito? Podem se permitir a viver ali? Se não podem, não é nenhuma compensação que Londres seja um paraíso dos muito ricos. Podem conseguir empregos remunerados decentemente ou qualquer tipo de emprego? Se não podem, de que serve jactar-se de ter restaurantes de três estrelas Michelin, com alguns chefs convertidos eles mesmos em estrelas. Podem levar seus filhos à escola? A falta de escolas adequadas não é compensada pelo fato de que as universidades de Londres podem montar uma equipe de futebol com seus professores ganhadores de prêmios Nobel.



A prova de uma política progressista não é privada, mas sim pública. Não importa só o aumento do lucro e do consumo dos particulares, mas sim a ampliação das oportunidades e, como diz Amartya Sen, das capacidades de todos por meio da ação coletiva. Mas isso significa – ou deveria significar – iniciativa pública não baseada na busca de lucro, sequer para redistribuir a acumulação privada. Decisões públicas dirigidas a conseguir melhorias sociais coletivas com as quais todos sairiam ganhando. Esta é a base de uma política progressista, não a maximização do crescimento econômico e da riqueza pessoal.



Em nenhum âmbito isso será mais importante do que na luta contra o maior problema com que nos enfrentamos neste século: a crise do meio ambiente. Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, significará um deslocamento de grande alcance, do livre mercado para a ação pública, uma mudança maior do que a proposta pelo governo britânico. E, levando em conta a gravidade da crise econômica, deveria ser um deslocamento rápido. O tempo não está do nosso lado.

Artigo publicado originalmente no jornal The GuardianTradução do inglês para o espanhol: S. Segui, integrante dos coletivos Tlaxcala, Rebelión e Cubadebate.Tradução do espanhol para o português: Katarina Peixoto

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Do meu lado


Do meu lado no banco, sentado
Tem um moço, novo e corado.
É filho dum caboclo.
Nasceu na cidade.

Acorda e se esparrama na cama.
Mulher ta na cozinha pequenina, mínima.
Os menino tão durmino.

Numa piazinha de metal na frente dum buraco,
O qual chamam janela, mulherzinha mimosa faz café.

Levanta então...
O filho do caboclo.
Café fraco
Toma tudo
Corre com pressa
Vai entrá na lotação
A primeira.


Vida triste...
Repete mesma coisa todo dia.
Repetição estranha de dias mesmos:
Casa
Ônibus
Construção
Cimento
Gritaria
Almoço barato
Ropa suja
Mão áspera
Costa torta
Dinhero curto.

Então ele volta.
Taciturno de cansado.
Quase dorme no caminho...
Pensa poco...
Procura não pensá,
Não qué...
Pra quê?
Pra se dá conta da monocórdia vida triste,
Vida mesma,
Vida pobre...



Chegô!
Mulher saiu.
Foi pro culto.
Comeu sozinho o prato ca comida fria e foi durmi.
Nem ligô pros menino...
Ah! Os menino...
Tão por ai.
Dez da noite...
E os menino tão por ai.
Arma ainda não vi no caminho dos menino
Mas onde será que tão?

Mas o filho do caboclo tem que durmi.
Não tem tempo
Acorda cedo
Pega lotação
Senta do meu lado
Pra continuá a vida poca.
Continuá a luta pelo poco da vida
Da vida pobre
Vida mesma no barraco

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Saudade dos que viveram

A morte.

Ela arranca do lugar comum, previsível,
A imagem daquele que se espera encontrar.

A importância singela que existe no reencontro comum das datas importantes;
A visualização de tudo em seu devido lugar;
Cada um com o espaço que lhe cabe,
E com aceitação plena,
Não o modifica.
A morte o esvazia...

Esvazia depressa
Retira tudo:
Palavra, suspiro, olhar, sorriso,
Beleza, brilho e, por fim, a imagem.

Devagar torna-nos únicos,
Como personagens que deixam de existir...


Ver o Personagem em beleza, brilho, olhar, suspiro...
Palavra, olhar e sorriso.
Era o que esperávamos:
Eternamente, vê-lo...
Mas, agora...
Lembrá-lo, eternamente.

Num instante sai de cena
Tudo que mantinha o Personagem
Com seus chavões previsíveis, mas, certamente, reconfortantes,
Sob a luz da vida.

E com a morte vai-se a certeza de que naquele lugar,
A qualquer hora,
Ele se faria vivo em suas falas e movimentos inconfundíveis.

domingo, 5 de abril de 2009

Capitu era mais mulher do que Bentinho era homem.
A mulher, sem esforço, é mulher plenamente; em todos seus atributos.
O homem se esconde na condição de homem.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

1991

Muitos metros acima do chão,
Sustentado por quilos de cimento e ferro.
Trancado, como que me protegendo covardemente...
Como, leio, penso, ensaio uma revolução.

Comovido com fatos, homens, fomes.
Que não conheci, não vi, não experimentei,
Ensaio uma revolução; sozinho.
Pobre.
Sem teorias nem ideologias dogmáticas eu a quero;
mas é só o que tenho!

Um eremita, rodeado por uma multidão desses.
Não quero a verdade,
Nem os outros a querem.
Isolam-se atrás de fones de ouvido, de paredes, folhas de jornal ou uma cara amarrada.
Estão a muitos universos da cadeira do metrô, dos fatos, fomes e cobras.

Assim como eu, um ser alheio-indignado-enganado, todos os dias,
Por jornais, propagandas, ensaios e livros.
Em nada sou empírico.
Somente enganações, em forma de letras ordenadas, absorvi.
Assim, ensaio uma revolução.

Aquela, que, com razão, dizem ter morrido.
E sucumbiu no abismo do século
Mas ouçam!
Essa não era a revolução...
Porque, assim como eu a ensaio hoje, outros a fizeram.
Por isso permaneço mudo.
Não quero os lixos do passado
A anti-revolução.

Invenção

Pareceu ter sido minha vida inventada
Lá longe no tempo, por gente pálida
Gente rebocada do outro lado do mar
Arrastadas sob céu para me inventar
Ao olhar atento do flagelo
Ao bater duro do martelo
Jogados a se lambuzar
Sem saber dos pelados já vestidos
Que não tinham boca nem ouvidos
Forçados a se juntar
Aos fugidos do litoral
Que cercaram a liberdade total
Todos misturados no miolo da nação
Forjaram com inconsciente precisão meu coração
Para construir minha vida
E em estranha saudade a prender sozinha.

Nas casas derrubadas sumiu um pouco minha cara
Cada rua despedaça as memórias em poeira
Da invenção da minha vida
A lembrança não vivida resiste ainda
Desses tempos, de cara feia dos patrões
De escondidos nos porões
Que não se renderam ainda que mudos
Rebeldes aos soldados e seus escudos
Para que ao quebrar dos muros
Inventassem meu cantar

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Tragédia da vida privada I

O que é a amizade? Ou melhor, o que se espera dela?
Talvez lealdade, talvez verdade, talvez compreensão... Mas ela, a amizade, é construída por pessoas, que pelo discurso constroem suas imagens, e nem sempre o que está no discurso é a verdade.

Que belo! Pessoas que têm algo em comum confraternizam-se, trocam confidencias, juram fidelidade, lealdade e compreensão. Mas quem confia nos homens? Eles mentem... E engraçado como essas juras só aparecem em momentos de prazer e diversão, num hedonismo inerente aos indivíduos de nosso tempo. Precise de alguém e vai ver. Tente dizer a verdade ao invés da cega concordância. Desvie os olhos de suas coisas perto deles, dos amigos, dos amados amigos falsos. Será ignorado, será achincalhado, será roubado!

Penso então: Pelo menos ao serem descobertos em alguma deslealdade manteriam a dignidade, assumindo seus atos, pedindo desculpas (embora muitos desses atos não mereçam perdão). Que isso? Esperar o ideal dos outros é um erro, e esperar dignidade deles é erro pior. Não, os desleais não têm dignidade, eles destorcem a verdade, mentem, exageram, para que o mundo não os enterre, para que suas figuras não fiquem tão mau pintadas no quadro da sinceridade.

E assim segue a vida, uma tragédia escrota. A gente vê tudo isso, sofre com amigos-inimgos, e ainda assim confia-se novamente, descobrem-se outras pessoas e nossos segredos começam a voar de novo, para os ouvidos dos nossos necessários amigos... Talvez a sorte bata à nossa porta, talvez nos surpreendam pessoas que realmente cumpram com o que dizem, tenho fé, elas existem, mas são poucas, jóias que têm de ser cuidadas, para que a verdade dure nesse meio raro de sincera amizade.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Anticlaustrofobia

À noite...
De tão pouco fazer
Tudo ficou pequeno
Pequeno como uma toca
Do tamanho do tédio

No céu o preto
O escuro maior que o mundo
Era eu.
Do tamanho do nada
Morria com a perna pra cima
Preocupado com bundas
Beijando puras moças de rua.
A luz não pegaria meu mundo
Ele se afogaria profundo

Poucos anos
Tempo curto
Desculpa de um bobo
Comia biscoito
Vendo comédias
Com chinelo de dedo

Um lugar comum
Aos que vivem de esforço nenhum
Aos que vivem de cueca
De baixo de travesseiros
Coberto não tenho frio
Trancado não fico feio

Depois da porta
Parede dos lados
Chão e teto
Poucos metros quadrados
Fico grande
Num mundo sem tamanho
Mundo meu
Só meu
Perfeito.
Os olhos que não o vêem
Não difamam, não degradam
Mas tem meu elogio
Meu doce mundo sem medo
Porque não o inventei aqui