quarta-feira, 28 de outubro de 2009

CQC: um programa de humor e sua íntima relação com o senso comum.


Refletindo sobre o programa humorístico CQC, transmitido às segundas feiras pela BAND, fiquei intrigado e um tanto preocupado com uma certa maneira de utilizar os fatos da política e da sociedade com a finalidade de produzir humor, a caricatura. Que por um lado é muito interessante, pois nos leva a algum tipo de reflexão por meio de uma provocação engraçada, divertida; contudo, dessa mesma provocação divertida acerca de um fato, situação ou indivíduo produz-se também perversidades, porque essa maneira de se valer de tais elementos fomenta interpretações que reproduzem uma característica bem conhecida da mentalidade popular: o senso comum.

O referido programa satiriza a estrutura dos telejornais, de modo que seu conteúdo está diretamente ligado ao objeto de cuja referência se constrói uma caricatura com o objetivo de causar o riso; portanto, vale-se de temas como a política, economia, problemas sociais e o cotidiano - talvez por isso o “humor” de Tas e companhia tenha ganhado o adjetivo de “inteligente” e, de certa forma, responsabilidade no trato da política, sociedade etc.

Contudo, mesmo que a finalidade primeira do programa seja fazer humor e pelo fato mesmo de fazer humor, ao abordar assuntos controversos e polêmicos, engendram-se determinadas interpretações acerca destes – os quais servem de mote para as piadas veiculadas pelo programa – que são perigosas, pois reduzem e simplificam a realidade; e se assimiladas pelas pessoas fomentam o senso comum.

O problema desta interessante manifestação da mentalidade popular enquanto estrutura de pensamento para se concluir alguma coisa de algo é a minimização das determinações da vida real à rusticidade de causas e conseqüências pouco esclarecedoras, estereótipos e chavões, que, no limite, conserva velhos preconceitos nos diferentes âmbitos da sociedade.

Tal distorção se faz presente pela maneira como se “fabrica” este tipo de humor – da sátira política e social, tão amigo das generalizações , superficialidades e dos referidos estereótipos; e que perde todo sentido no plano do relativismo. De modo que, essa forma de produzir um discurso sobre a realidade, se não deriva, encaixa-se perfeitamente aos lugares comuns.

Tomo aqui o programa CQC, pois ao incorporar uma estrutura jornalística à construção de seu humor, chega-se, em alguns momentos, à aparência de jornalismo bem humorado, contudo não o é; mas é sim humor fantasiado de jornalismo, pois não informa, faz piada e apenas isso, a diferença é que seus temas são a política, o cotidiano etc. E esse “erro interpretativo” no assistir o programa, se cometido, é gravemente “distorcivo” ao se assimilar assuntos de grande importância e complexidade como a corrupção política, fazendo com que se entenda tal fato, que aqui está como exemplo, no citado plano das generalizações estereotipadas, engendrando opiniões que são cartas marcadas, formadoras do desinteresse e pouco esforço na compreensão desse tipo de assunto, fazendo parecer que tal situação só tem sentido na piada, “pois o país não tem jeito mesmo”.

Portanto, é necessário criticar todos os tipos e modos de dizer, para não nos deixarmos levar pelo cômodo senso comum, que nos persegue de todos os lados e se esconde no que aparentemente é inteligente e engraçado .

domingo, 25 de outubro de 2009

Vazio de ser e Cheio de vida

Uma fuga simples
O livro me dá.
Pois me escapa a força da ação
Daquela personagem cuja vida não cabe...
Escapa à ordem...

Num modo de ser ávido de existência,
Que o tempo come;
Que não dá tempo;
Que nada falta
E tudo transborda
De vida inteira...
Completa...
Num pequeno frasco cheio de ser

Mas me esvazio da força da corrente
Que destrói a borda do rio;
Que passa com fúria
E não pode consigo em seu leito.

sábado, 24 de outubro de 2009


Todos os escolásticos concordam em que as crianças ignoram os motivos que excitam a sua vontade; porém que os adultos se arrastam sobre este globo sempre vacilando como as crianças; que, como elas, não sabem donde procedem; que não tem mais unidade em suas ações; e que são governados da mesma sorte com biscoitos, bolinhos e disciplinas; é o que ninguém há de acreditar de boa vontade, e contudo o argumento me parece palpável. Confesso-te sem custo, porque sei qual seria a tua objeção, a este respeito, que estes são os mais ditosos; pois que, à maneira de crianças, não vivem senão para o presente, passeiam, despem e vestem as suas bonecas, rodeiam com o maior respeito à gaveta em que a mãezinha tem os bolinhos, e apenas conseguem o que desejam logo o devoram ansiosamente e gritam: quero mais! Estas criaturas assim são indubitavelmente venturosas! Felicidade ainda para aqueles que, dando uma decoração pomposa às suas ocupações fúteis e títulos aparatosos às suas paixões; representam-nas ao gênero humano com o aspecto de operações gigantescas, praticamente para a sua prosperidade e gloria! Ditosos os que podem pensar assim! Porém aquele que modesto no seu coração conhece a vaidade de todas estas coisas; que observa o prazer com que o aldeão feliz transforma o seu pequeno jardim em um paraíso; e com que diligência o desgraçado, curvado com o peso da sua miséria, segue o seu caminho quase faltando-lhe o alento; que vê, eu o repito, que todos são igualmente interessados a contemplar, mesmo um só minuto mais, a luz do grande astro: este sim pode gozar tranqüilidade; cria um mundo por si mesmo e também é feliz porque é homem. Ainda que seja de muito limitados talentos, sempre nutre no coração o doce sentimento da liberdade, porque poderá deixar este caos quando quiser.

(Trecho da Carta 7, 22 de maio. Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe.)


domingo, 18 de outubro de 2009

Uma nova igualdade depois da crise

O objetivo de uma economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população. O crescimento econômico não é um fim, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas. Não importa como chamamos os regimes que buscam essa finalidade. Importa unicamente como e com quais prioridades saberemos combinar as potencialidades do setor público e do setor privado nas nossas economias mistas. Essa é a prioridade política mais importante do século XXI. A análise é de Eric Hobsbawm. Clique aqui e veja o artigo completo