sábado, 24 de outubro de 2009


Todos os escolásticos concordam em que as crianças ignoram os motivos que excitam a sua vontade; porém que os adultos se arrastam sobre este globo sempre vacilando como as crianças; que, como elas, não sabem donde procedem; que não tem mais unidade em suas ações; e que são governados da mesma sorte com biscoitos, bolinhos e disciplinas; é o que ninguém há de acreditar de boa vontade, e contudo o argumento me parece palpável. Confesso-te sem custo, porque sei qual seria a tua objeção, a este respeito, que estes são os mais ditosos; pois que, à maneira de crianças, não vivem senão para o presente, passeiam, despem e vestem as suas bonecas, rodeiam com o maior respeito à gaveta em que a mãezinha tem os bolinhos, e apenas conseguem o que desejam logo o devoram ansiosamente e gritam: quero mais! Estas criaturas assim são indubitavelmente venturosas! Felicidade ainda para aqueles que, dando uma decoração pomposa às suas ocupações fúteis e títulos aparatosos às suas paixões; representam-nas ao gênero humano com o aspecto de operações gigantescas, praticamente para a sua prosperidade e gloria! Ditosos os que podem pensar assim! Porém aquele que modesto no seu coração conhece a vaidade de todas estas coisas; que observa o prazer com que o aldeão feliz transforma o seu pequeno jardim em um paraíso; e com que diligência o desgraçado, curvado com o peso da sua miséria, segue o seu caminho quase faltando-lhe o alento; que vê, eu o repito, que todos são igualmente interessados a contemplar, mesmo um só minuto mais, a luz do grande astro: este sim pode gozar tranqüilidade; cria um mundo por si mesmo e também é feliz porque é homem. Ainda que seja de muito limitados talentos, sempre nutre no coração o doce sentimento da liberdade, porque poderá deixar este caos quando quiser.

(Trecho da Carta 7, 22 de maio. Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe.)


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