Pareceu ter sido minha vida inventada
Lá longe no tempo, por gente pálida
Gente rebocada do outro lado do mar
Arrastadas sob céu para me inventar
Ao olhar atento do flagelo
Ao bater duro do martelo
Jogados a se lambuzar
Sem saber dos pelados já vestidos
Que não tinham boca nem ouvidos
Forçados a se juntar
Aos fugidos do litoral
Que cercaram a liberdade total
Todos misturados no miolo da nação
Forjaram com inconsciente precisão meu coração
Para construir minha vida
E em estranha saudade a prender sozinha.
Nas casas derrubadas sumiu um pouco minha cara
Cada rua despedaça as memórias em poeira
Da invenção da minha vida
A lembrança não vivida resiste ainda
Desses tempos, de cara feia dos patrões
De escondidos nos porões
Que não se renderam ainda que mudos
Rebeldes aos soldados e seus escudos
Para que ao quebrar dos muros
Inventassem meu cantar
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