quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Acordado

O dia não é triste.
Triste é à noite.
À noite tudo vem na mente sem sono.
O corpo cansado não consegue sonhar.


À noite a saudade aperta e o medo toma conta. Não é medo da vida, É de outra coisa que não sei o que é.
Porque a vida é boa, e se vive de dia.
À noite é que se pensa e que se sofre...
À noite a gente ouve os ruídos dos carros bêbados, e os cachorros sem dono latem fazendo um eco que parece chamar a dor.
O dia nasce triste, mas se acorda sem nada no peito.


Quando era pequeno tinha medo do escuro, e eu chorava.
Não sabia por que, mas eu chorava e não tinha vergonha. Era fácil me proteger.
Era só subir na cama dos meus pais e dormir entre eles. Nunca houve lugar melhor.
A gente vai perdendo o dia eterno, e a Cada hora, a cada minuto parece que a noite vem mais rápido.
Nada é tão confortável como antes, as vontades não são tão simples.
Por que estar alegre é mais difícil do que quando era pequeno?

Por que nada é simples?

Por que ainda não posso sentir a cama tão confortável como quando era pequeno?

Por que a noite é assim... Triste?



Não sei por quê...
Meu peito dói agora...
Mas me sinto melhor.
Tenho coisas a fazer amanhã. Amanhã haverá o dia. E o dia não é triste como a noite.

Aquele que viveu

Ninguém os vê. Eles tentam se mostrar, mas ninguém quer vê-los.

Eu ouvia alguém falar comigo...

Como já tinha vivido o velho Pianista.
Hoje só podia se lembrar de suas célebres canções,
Mas contava com orgulho dos dias que tem saudade
E assobiava com os olhos fechados, na cadeira de balanço, ao lado do aposentado piano, que ,empoeirado, guardava seus segredos.

Eu o ouvia atento,
Como poucos eu o ouvia.

Me contou do exílio e da esperança que foi tirada de sua juventude
por cantar o seu amor, mas não se arrependeu.
Contou-me do crescimento das cidades,
Das casas no centro, que se transformaram em prédios de onde se via toda iniquidade.
Me contou da esperança de antes e de agora e diz ainda não tê-la perdido.
Só se entristece quando pensa que tudo está melhor maquiado,
mas nada mudou...

"As coisas são mais belas do que eram, mas continuam pobres como antes. Pensei poder mudar, pensei que depois dos cafezais poderia viver.
A cidade aqui era boa, então tocava. Nos cabarés me conheciam. E confesso, gostava d’ali.

vivi bons 20 anos, não que eram melhores que hoje, mas tinha sangue novo em minhas veias. Mas por outros anos dessa mesma conta não podia dizer aquilo que me desagradava, então pediram para me mudar daqui, e fui tocar em outro lugar, lá não falavam minha língua, sobrevivia como dava, e quando disseram pra voltar ... voltei com saudades.

A esperança aparecia... na rua se pedia, se gritava e corria, diziam que tudo iria melhorar. Mas já sentia as lembranças pesarem, e minha costas já doíam... Realmente já estava cansado... Agora um pouco mais e pouco mudou por aqui..."

Respirou fundo o velho pianista e foi se deitar.
Enquanto eu pensava:
"E eu o que vou contar... Será que por toda minha vida só terei esperança.
Então ver que só os prédios mudaram.

Não sei. Talvez viver seja assim.