quinta-feira, 4 de setembro de 2008

CONTRADIÇÃO

Salvo e Forte
Corpo meu segue frio.
Mente?
Voa.

Dorme o olho
Penso morto,
morto no instante
e vivo no espaço.

Coração vazio
Luz na consciência
De que vale a ciência?

Sou porco.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Introdução à tragédia da vida privada


Desabou...
Num instante pobre.
Num momento sensível à pobreza do espírito veio, à sombra do desagradável, o infortúnio não esperado. Como um tinido estridente, ardeu nos ouvidos presentes, o brado que derrubou aquilo que se construiu com o esforço da omissão dos defeitos pessoais.

Debaixo da incomoda certeza de que ninguém mais se podia aturar, todos, hipocritamente, fingiam acreditar na mascara da perfeição e sincera amizade. Sorriamos, mostrávamos os dentes em risadas de fingimento. Da boca venenosa saia, quando de costas, o que fez desabar os alicerces que nos sustentavam lado a lado como uma família indecente e desleal.

Foi preciso um único estalo, um único verbo torto, de um desgraçado inconformado com o engodo que se mostrava naquela circunstância aparentemente amável...

II

E assim se fez.
O verbo torto se ouviu
E no fim não importava mais da boca de quem ele saiu.
O falatório, comum da discórdia fraterna, tornou-se logo tribunal.
O que parecia fraternal terminou com as mascaras no chão.
E no tribunal das relações não tem prisão nem tortura.
Tem desgosto.
Todo mundo descobriu o que no inicio se escondeu e se omitiu
para que, por meio da mentira, o necessário da amizade se houvesse construído.
Mas desabou num instante infeliz
Sem prólogo nem epílogo.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Genitores do Engodo

Toda raiva, inconsciência e pouca sorte.
Toda ostentação e necessidades, pequenas no sentido e no espirito.
Toda crença em bobagens e pouca fé, quase nenhuma inspiração.
Esses são nossos pais, bons no caráter, mas pobres na mente e nos desejos.
Ínfimos objetivos e opiniões inexistentes.
Faculdade isolada do mundo, pensamento primata e experiência de porco.

Experiência que fez nascer o desejo de demonstrar o quanto estas foram ruins,
Atirando suas derrotas nos indefesos pequenos compradores de videogames.
Inertes gordos adolescentes, mais pobres que toda censura da inteligência.
Tanto quanto seus pais, filhos da ignorância.
Cruzados da não consciência.

Pais esquecidos, tiveram a memoria comida pelos dragões do século,
Vêem no mundo apenas vitrines
Vêem a solução apenas no poder
Vêem a gratidão apenas no pagamento de seu porco quinhão, o suborno de todo cidadão
Vêem a virtude em toda boa aparência
Vêem a consciência em toda disciplina de mercado, em todo reacionário, em todo corrupto que busca o status individual de riqueza e poder.
Vêem a inteligência em todo cargo de poder, em toda matéria trazida pelo fruto da usura.


Sem perceber as mães os ensinaram isso aos seus filhos.


Estou aqui, no meio disso...
A hierarquia continua, e o respeito, ordenado por ela, é obrigatório.

Viraram as coisas...
Terremotos de sujeira transformaram as mentes em poços de incomodo e desgosto.

Pararam...
Vão implodir a indecência de toda incultura e pobreza.
MENTIRA

O melhor é esquecer
Todo o resto é bobagem
Como a histeria deste poema.




quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

O Comedor de Sonhos

Quem comeu o sonho?
Mastigaram -no, tornando -o partícula pequena do tecido que o continha.
Sonhar me deixou feliz, enquanto, entediado, pensava no futuro que me aguardava.

Ele me fez viver bem enquanto a realidade era viva nele.
Agora, a partícula pequena da possibilidade tornou-se esperança,
Pouca, mas viva.

Achar que o devaneio seria real tornou-me arrogante,
Contei com a mentira e a incerteza,
Mas como tudo que se apóia nisso...
O que construí caiu rapidamente.

Mergulhei, bobo, na possibilidade da grande conquista sem esforço.
Esse foi o motivo do pouco merecimento.

Desperto ligeiramente decepcionado com o despertador,
Porque tirou-me a realidade desacordada da certeza perfeita,
Que a inconsciência da noite me trouxe.

Conformo-me a contento, e agora sei:
O esforço é inevitável pois a competição é certa.

Percebo, portanto, que o devorador do sonho foi minha própria certeza nele.
Foi bom sonhar.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Dos Crentes em além mundos ( Assim Falava Zaratustra)


Um dia, Zaratustra elevou a sua ilusão mais além da vida dos homens, à maneira de
todos os que crêem em além-mundos.
Obra de um deus dolente e atormentado lhe pareceu então o mundo.
“Sonho me parecia, e ficção de um deus: vapor colorido ante os olhos de um divino
descontente.
Bem e mal, alegria e desgosto, eu e tu, vapor colorido me parecia tudo ante os olhos
criadores. O criador queria desviar de si mesmo o olhar... e criou o mundo.
Para quem sofre é uma alegria esquecer o seu sofrimento. Alegria inebriante e
esquecimento de si mesmo me pareceu um dia o mundo.
Este mundo, o eternamente imperfeito, me pareceu um dia, imagem de uma eterna
contradição, e uma alegria inebriante para o seu imperfeito criador.
Da mesma maneira projetei eu também a minha ilusão mais para além da vida dos
homens à semelhança de todos os crentes em além-mundos. Além dos homens,
realmente?
Ai, meus irmãos! Este deus que eu criei, era obra humana e humano delírio, como
todos os deuses.
Era homem, tão somente um fragmento de homem e de mim. Esse fantasma saía das
minhas próprias cinzas e da minha própria chama, e nunca veio realmente do outro
mundo.
Que sucedeu, meus irmãos? Eu, que sofria, dominei-me; levei a minha própria cinza
para a montanha; inventei para mim uma chama mais clara. E vede! O fantasma
ausentou-se!
Agora que estou curado, seria para mim um sofrimento e um tormento crer em
semelhantes fantasmas. Assim falo eu aos que creem em além-mundos.
Sofrimentos e incompetências; eis o que criou todos os além-mundos, e esse breve
desvario da felicidade que só conhece quem mais sofre.
A fadiga, que de um salto quer atingir o extremo, uma fadiga pobre e ignorante, que
não quer ao menos um maior querer; foi ela que criou todos os deuses e todos os alémmundos.
Acreditai-me, meus irmãos! Foi o corpo que desesperou do corpo: tateou com os
dedos do espírito extraviado as últimas paredes.
Acreditai-me, meus irmãos! Foi o corpo que desesperou da terra: ouviu falar as
entranhas do ser.
Quis então que a sua cabeça transpassasse as últimas paredes, e não só a cabeça: até
ele quis passar para o “outro mundo”.
O “outro mundo”, porém, esse mundo desumanizado e inumano, que é um nada
celeste, está oculto aos homens, e as entranhas do ser não falam ao homem, a não ser
como homem.
É deveras difícil demonstrar o Ser, e difícil é fazê-lo falar. Dizei-me, porém, irmãos:
a mais estranha de todas as coisas não será a melhor demonstrada?
E, este Eu que cria, que quer, e que dá a medida e o valor das coisas, este Eu, e a
contradição e confusão do Eu falam com a maior lealdade do seu ser.
E este ser lealíssimo, o Eu, fala do corpo, e quer o corpo, embora sonhe e divague e
esvoace com as asas partidas.
O Eu aprende a falar mais realmente de cada vez, e quanto mais aprende, mais
palavras acha para honrar o corpo e terra.
O meu Eu ensinou-me um novo orgulho que eu ensino aos homens: não ocultar a
cabeça nas nuvens celestes, mas levá-la descoberta; sustentar erguida uma cabeça
terrestre que creia no sentido da terra.
Eu ensino aos homens uma nova vontade: querer o caminho que os homens têm
seguido cegamente, e considerá-lo bom e fugir dele como os enfermos e os decrépitos.
Enfermos e decrépitos foram os que menosprezaram o corpo e a terra, os que
inventaram as coisas celestes e as gotas de sangue redentor; mas até esses doces e
lúgubres venenos foram buscar no corpo e na terra!
Queriam fugir da sua miséria, e as estrelas estavam demasiado longe para eles. Então
suspiraram: “Oh! se houvessem caminhos celestes para alcançar outra vida e outra
felicidade!” E inventaram os seus artifícios e as suas beberagens sangrentas.
E julgaram-se arrebatados para longe do seu corpo e desta terra, os ingratos! A quem
deviam, porém, o seu espasmo e o deleite do seu arroubamento? Ao seu corpo e a esta
terra.
Zaratustra é indulgente com os enfermos. Não o enfadam as suas formas de se
consolarem, nem a sua ingratidão. Curem-se, dominem-se, criem um corpo superior!
Zaratustra também se não enfada com o que sara quando este olha com carinho as
suas ilusões, e vai à meia-noite rodear a tumba do seu Deus; mas as suas lágrimas
continuam sendo para mim enfermidade e corpo enfermo.
Houve semprei muitos enfermos entre os que sonham e suspiram por Deus; odeiam
furiosamente o que procura o conhecimento e a mais nova das virtudes, que se chama
lealdade.
Olham sempre para trás, para tempos obscuros; nesse tempo, de certo, a ilusão e a fé
eram outra coisa. O delírio da razão era coisa divina, e a dúvida, pecado.
Conheço demasiado esses semelhantes a Deus; querem que se acredite neles e que a
dúvida seja pecado. Também sei de sobra no que é que eles crêem mais.
Não é, certamente, em além-mundos e em gotas de sangue redentor; eles também
crêem sobretudo no corpo, e ao seu próprio que olham como a coisa em si.
O seu corpo, porém, é coisa enfermiça e de boa vontade se livrarão dele. Por isso
escutam os pregadores da morte e eles mesmos pregam os além-mundos.
Preferi, meus irmãos, a voz do corpo curado; é uma voz mais leal e mais pura.
O corpo são, o corpo cheio de ângulos retos, fala com mais lealdade e mais pureza;
fala do sentido da terra”.
Assim falava Zaratustra.

Frederico Nietzsche

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Do episódio de Wendel Soares


Wendel Soares, domingo passado, dormia tranquilamente em sua cama quando teve a pior experiência de sua vida. Um tenebroso pernilongo de 5 centímetros aprouximou-se lentamente de sua pessoa, zunindo e sedento por alguns goles de sangue. Agora mirava a sua mais nova presa, que como um bovino oferecia-lhe o alimento.
Quando o pobre rapaz acordou, já era tarde, a ponta de seu dedo indicador inchara e jamais sentira-se no mundo dor maior que a de Wendel Soares.
Depoimentos:
Ao colidir meu carro, a roda se soltou atingindo violentamente minha cabeça. Meu pescoço se quebrou e minha morte foi instantânea. Esse foi o maior trauma da minha vida, ou da minha morte (como preferir). Garanto que senti muita dor ao morrer, mas eu posso afirmar, com toda a sinceridade, que a dor de Wendel, foi pior.
Airton Senna

Não lembro como, nem quando morri, mas eu garanto que qualquer dor que eu possa ter sentindo, a de Wendel foi pior.
Aristóteles

Uma vez estava descansando na varanda de minha casa, quando uma gigante onda (Tsunami) passou e me arrastou por 39 quarteirões. Após este terrível episódio, meu rosto ficou desfigurado e meu corpo tetraplégico. Perdi as duas mãos e parte do pé direito. Mas, toda minha dor não se compara a dor de Wendel Soares.
Habitante anônimo da Indonésia, vítima da Tsunami

Estava no céu, pensando na morte, quando ouvi pela décima quinta vez alguém repetindo meu nome. Com tanto nome de papa para escolher, por que cargas d'água esse senhor resolveu escolher um que já havia sido usado 15 vezes? Esse foi o motivo da maior indgnação de minha morte, mas com certeza a dor do nosso irmão Wendel, é muito mais "indignante" que isso.
Papa Bento I

Um dia a minha pessoa gorda e pelancuda estava passeando em uma montanha cheia de neve, quando senti uma enorme dor de barriga. Corri para a cabana mais próxima e dois homens bondosos me acolheram. Eles não me deixaram ir ao banheiro, mas comi uma bela sopa de tomate com ervilhas e fui descansar um pouco. Ao deitar senti a vontade de defecar novamente e, dessa vez, fui. Foi então que algo terrível ocorreu: no lugar do defeco saiu uma enorme lesma (e lógico, mais bonita do que eu), que acreditei ser um extraterrestre. Mas, isso não se compara a picada de pernilongo de Wendel. Você acha? Só porque uma lesma saiu do meu bumbum.
Epaminondas
(Filme: O apanhador de Sonhos)

No ano de 1912, eu fiz uma viagem aos EUA que nunca foi concluída. Estava no famoso RMS TITANIC, como é de conhecimento geral, o naviu colidiu com um iceberg e afundou em menos de duas horas. Haviam 2223 pessoas a bordo, 1500 caíram no mar. Eu e meu grande amor, Rose, estávamos entre essas pessoas. Havia uma madeira no meio do oceano e eu, muito cavalheiro, permiti que Rose ficasse sobre ela. Aquela água gelada era como mil facas perfurando todo o meu corpo. minha morte foi lenta e muito dolorosa, mas não como a dor de Wendel Soares.
Jack Dowson
(Passageiro nº 1357 do RMS TITANIC, 3ª Classe)

Após ter sido participante da Inconfidência Mineira, denunciada (por Joaquim Silvério dos Reis) e por isso fracassada, fui pego como bode espiatório. Enquanto os ricos foram exilados para a África, eu fui morto enforcado, tive meu corpo esquartejado e minhas partes destribuídas por toda Minas Gerais. Além do azar, seguiu-se a dolorosa morte, mas nada comparavél a picada de Wendel Soares.
Joaquim José da Silva Xavier
(Vugo, Tiradentes.)

Estava muito feliz tomando um banho relaxante quando senti uma leve brisa. Poucos segundos depois, percebi que não era apenas uma brisa e sim um furacão. Tal ventania era tão intensa que me arrastou para dentro de seu núcleo, o cano do chuveiro se soltou e atingiu em cheio minha cabeça, o cano era imenso e perfurou todos os meus órgãos e saiu pelo que está entre minhas nádegas. Minha morte foi instantânea. Mas, com certeza, toda essa dor não chega aos pés da dor de Wendel.
Habitante anônimo de New Orleans, vítima do Furacão Katrina.
Wendel Soares morreu hoje, aos 59 anos, agonizando em sua cama. Pedindo socorro e berrando de dor.
O pernilongo, será intimado a depor em três dias, fato que revoltou a população, já que o inseto em questão morrerá em cerca de 12 horas e, sendo assim, passará o resto de sua vida em liberdade.
Rapha e Mary

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Acordado

O dia não é triste.
Triste é à noite.
À noite tudo vem na mente sem sono.
O corpo cansado não consegue sonhar.


À noite a saudade aperta e o medo toma conta. Não é medo da vida, É de outra coisa que não sei o que é.
Porque a vida é boa, e se vive de dia.
À noite é que se pensa e que se sofre...
À noite a gente ouve os ruídos dos carros bêbados, e os cachorros sem dono latem fazendo um eco que parece chamar a dor.
O dia nasce triste, mas se acorda sem nada no peito.


Quando era pequeno tinha medo do escuro, e eu chorava.
Não sabia por que, mas eu chorava e não tinha vergonha. Era fácil me proteger.
Era só subir na cama dos meus pais e dormir entre eles. Nunca houve lugar melhor.
A gente vai perdendo o dia eterno, e a Cada hora, a cada minuto parece que a noite vem mais rápido.
Nada é tão confortável como antes, as vontades não são tão simples.
Por que estar alegre é mais difícil do que quando era pequeno?

Por que nada é simples?

Por que ainda não posso sentir a cama tão confortável como quando era pequeno?

Por que a noite é assim... Triste?



Não sei por quê...
Meu peito dói agora...
Mas me sinto melhor.
Tenho coisas a fazer amanhã. Amanhã haverá o dia. E o dia não é triste como a noite.

Aquele que viveu

Ninguém os vê. Eles tentam se mostrar, mas ninguém quer vê-los.

Eu ouvia alguém falar comigo...

Como já tinha vivido o velho Pianista.
Hoje só podia se lembrar de suas célebres canções,
Mas contava com orgulho dos dias que tem saudade
E assobiava com os olhos fechados, na cadeira de balanço, ao lado do aposentado piano, que ,empoeirado, guardava seus segredos.

Eu o ouvia atento,
Como poucos eu o ouvia.

Me contou do exílio e da esperança que foi tirada de sua juventude
por cantar o seu amor, mas não se arrependeu.
Contou-me do crescimento das cidades,
Das casas no centro, que se transformaram em prédios de onde se via toda iniquidade.
Me contou da esperança de antes e de agora e diz ainda não tê-la perdido.
Só se entristece quando pensa que tudo está melhor maquiado,
mas nada mudou...

"As coisas são mais belas do que eram, mas continuam pobres como antes. Pensei poder mudar, pensei que depois dos cafezais poderia viver.
A cidade aqui era boa, então tocava. Nos cabarés me conheciam. E confesso, gostava d’ali.

vivi bons 20 anos, não que eram melhores que hoje, mas tinha sangue novo em minhas veias. Mas por outros anos dessa mesma conta não podia dizer aquilo que me desagradava, então pediram para me mudar daqui, e fui tocar em outro lugar, lá não falavam minha língua, sobrevivia como dava, e quando disseram pra voltar ... voltei com saudades.

A esperança aparecia... na rua se pedia, se gritava e corria, diziam que tudo iria melhorar. Mas já sentia as lembranças pesarem, e minha costas já doíam... Realmente já estava cansado... Agora um pouco mais e pouco mudou por aqui..."

Respirou fundo o velho pianista e foi se deitar.
Enquanto eu pensava:
"E eu o que vou contar... Será que por toda minha vida só terei esperança.
Então ver que só os prédios mudaram.

Não sei. Talvez viver seja assim.