quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Introdução à tragédia da vida privada


Desabou...
Num instante pobre.
Num momento sensível à pobreza do espírito veio, à sombra do desagradável, o infortúnio não esperado. Como um tinido estridente, ardeu nos ouvidos presentes, o brado que derrubou aquilo que se construiu com o esforço da omissão dos defeitos pessoais.

Debaixo da incomoda certeza de que ninguém mais se podia aturar, todos, hipocritamente, fingiam acreditar na mascara da perfeição e sincera amizade. Sorriamos, mostrávamos os dentes em risadas de fingimento. Da boca venenosa saia, quando de costas, o que fez desabar os alicerces que nos sustentavam lado a lado como uma família indecente e desleal.

Foi preciso um único estalo, um único verbo torto, de um desgraçado inconformado com o engodo que se mostrava naquela circunstância aparentemente amável...

II

E assim se fez.
O verbo torto se ouviu
E no fim não importava mais da boca de quem ele saiu.
O falatório, comum da discórdia fraterna, tornou-se logo tribunal.
O que parecia fraternal terminou com as mascaras no chão.
E no tribunal das relações não tem prisão nem tortura.
Tem desgosto.
Todo mundo descobriu o que no inicio se escondeu e se omitiu
para que, por meio da mentira, o necessário da amizade se houvesse construído.
Mas desabou num instante infeliz
Sem prólogo nem epílogo.