quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Aquele que viveu

Ninguém os vê. Eles tentam se mostrar, mas ninguém quer vê-los.

Eu ouvia alguém falar comigo...

Como já tinha vivido o velho Pianista.
Hoje só podia se lembrar de suas célebres canções,
Mas contava com orgulho dos dias que tem saudade
E assobiava com os olhos fechados, na cadeira de balanço, ao lado do aposentado piano, que ,empoeirado, guardava seus segredos.

Eu o ouvia atento,
Como poucos eu o ouvia.

Me contou do exílio e da esperança que foi tirada de sua juventude
por cantar o seu amor, mas não se arrependeu.
Contou-me do crescimento das cidades,
Das casas no centro, que se transformaram em prédios de onde se via toda iniquidade.
Me contou da esperança de antes e de agora e diz ainda não tê-la perdido.
Só se entristece quando pensa que tudo está melhor maquiado,
mas nada mudou...

"As coisas são mais belas do que eram, mas continuam pobres como antes. Pensei poder mudar, pensei que depois dos cafezais poderia viver.
A cidade aqui era boa, então tocava. Nos cabarés me conheciam. E confesso, gostava d’ali.

vivi bons 20 anos, não que eram melhores que hoje, mas tinha sangue novo em minhas veias. Mas por outros anos dessa mesma conta não podia dizer aquilo que me desagradava, então pediram para me mudar daqui, e fui tocar em outro lugar, lá não falavam minha língua, sobrevivia como dava, e quando disseram pra voltar ... voltei com saudades.

A esperança aparecia... na rua se pedia, se gritava e corria, diziam que tudo iria melhorar. Mas já sentia as lembranças pesarem, e minha costas já doíam... Realmente já estava cansado... Agora um pouco mais e pouco mudou por aqui..."

Respirou fundo o velho pianista e foi se deitar.
Enquanto eu pensava:
"E eu o que vou contar... Será que por toda minha vida só terei esperança.
Então ver que só os prédios mudaram.

Não sei. Talvez viver seja assim.